fbpx

Linguagem oral: fundamental para aprendizagem e comportamento

Em outros artigos do site você encontra informações sobre o desenvolvimento da linguagem oral. Aqui será descrito a relação da linguagem com a aprendizagem e os comportamentos.

A linguagem é essencial para a aprendizagem acadêmica!

As habilidades básicas que permitem ao escolar adquirir conhecimentos das diversas disciplinas são a leitura e a escrita. Ler bem, com fluência, propicia ao indivíduo acessar informação e construir conhecimento.

O nosso sistema de escrita é alfabético, ou seja, ao fazer a associação entre letras e sons, podemos decodificar o material escrito.

O domínio fonológico (sons da fala) tem forte influência no momento inicial da leitura e da escrita: ao aprender as letras, a criança precisa acessar os sons correspondentes para que, aos poucos, as associações entre letras e sons estejam fortes e sejam automatizadas.

Para compreender o que lê, o aluno acessa o significado das palavras, associa com o significado de outras palavras da mesma sentença e infere o conteúdo. Para escrever, também é necessário que tenha vocabulário para uso diversificado de palavras, assim como habilidade de construção frasal.

Muitos estudos indicam que o domínio linguístico na pré escola é fundamental para aquisição de leitura e escrita nos anos do ensino fundamental. Um destes estudos mostrou que a habilidade de compreensão oral aos três anos de idade influência a capacidade de compreensão, conhecimento fonológico e vocabulário aos quatro anos e meio. Estas habilidades aos 4,6 anos determinam o desempenho da criança para decodificar no 1º ano e compreender textos no 3º ano.

Então, quando uma criança tem dificuldades para desenvolver leitura e escrita, devemos fazer as seguintes perguntas:

Situação A:

A criança não consegue aprender a relação entre cada letra e seu som. Por exemplo, conhece todas as letras, mas não memoriza que a letra P tem o som /p/, que a letra B tem o som /b/, etc.

Perguntas:

A criança tem um sistema de sons organizado? Identifica quando ouve P e B, ou se confunde às vezes? Consegue fazer rimas, bater palmas para cada sílaba de uma palavra ouvida, perceber que algumas palavras começam com o mesmo som? Demoram para falar o nome das coisas, troca os nomes ou não consegue pronunciar corretamente palavras grandes e pouco ouvidas?

Situação B:

A criança ou adolescente lê corretamente, mas não compreende. Ou compreende palavras que lê, mas não entende textos maiores.

Perguntas:

Ele lê com fluência? Como é o vocabulário deste leitor? Ele tem conhecimento armazenado para poder entender enquanto está lendo? Ele consegue manter os significados na memória enquanto precisa terminar de ler o texto? Ele consegue se lembrar dos significados que acessou para poder associá-los? Entende figuras de linguagem?

Situação C:

O aluno tem muitos erros na escrita.

Perguntas:

A criança memorizou e automatizou todas as relações entre letras e sons? Percebe a diferença entre os sons, por exemplo, entre /f/ e /v/, para poder escrever corretamente VACA ou FACA? Compreendeu e memorizou as regras ortográficas? Entendeu que existem letras que tem múltiplos sons? Aprendeu uma estratégia de memorização? Conseguiu automatizar?

Situação D:

O aluno não tem muitos erros ortográficos, mas não desenvolve um bom texto.

Perguntas:

Este aluno consegue falar bem, argumentar e organizar suas ideias verbalmente? Tem vocabulário diversificado e conhecimento para expor? Identifica o objetivo do texto proposto?

As dificuldades relatadas acima podem ocorrer por déficits em habilidades como atenção, memória, funções executivas, motricidade, etc. As questões propostas referem-se apenas à linguagem e servem para nortear a observação e avaliação das crianças e adolescentes que chegam com queixa de leitura.

Muitos pacientes fazem a avaliação fonoaudiológica, apenas do processamento auditivo e não englobam a área de linguagem. Alguns chegam com diagnóstico de dislexia, que é dificuldade específica em leitura/escrita. Mas ao avaliar, nos deparamos com déficits em linguagem oral, cuja presença é fator de exclusão para o diagnóstico de dislexia. Maior que o problema do nome errado do diagnóstico, é que esta habilidade, nestes casos, não é considerada na conduta terapêutica, o que prolonga o tempo de tratamento.

Se você é responsável por uma criança ou adolescente com dificuldades de leitura e escrita, ou profissional que a atende, não deixe de abordar a linguagem oral.

A linguagem permite a comunicação eficiente, a organização do pensamento e um meio de controlar as próprias emoções e comportamento.

Em uma interação social, as crianças precisam entender o que as pessoas dizem, sentem, controlar suas próprias emoções e comportamentos e dar respostas favoráveis.

No desenvolvimento infantil, a criança se insere em interações sociais cada vez mais complexas como brigas, conflitos, competições, festas, apresentações, etc. É importante que tenham capacidade de compreensão e expressão verbal bem desenvolvidas para atender os desafios de seus ambientes sociais. O domínio da linguagem permite à criança:

  • Saber o nome e significado das emoções: alegre, triste, confuso, irritado, surpreso, apavorado. Uma criança que sabe o que é “bravo”, quando ouve um colega dizer que está bravo, imagina como ele está e pode escolher como agir.
  • Associar o nome das emoções às expressões faciais e corporais: pulo, gestos de jóia com o polegar e fala “estou tão alegre” são atos coerentes para expressar alegria. Quando a criança vê e ouve alguém fazendo isto, entende o contexto e pode escolher como agir.
  • Associar o nome das emoções à altura da voz e velocidade da voz:a frase “não quero brincar”, dita com voz baixa e melancólica, permite à criança que a ouve, identificar que o colega não está bem, e assim apropriar sua reação como resposta.
  • Entender o conteúdo da fala do outro: ao ouvir a frase “está chovendo canivetes” , a criança entende que está chovendo muito e não se assusta, porque não vai se machucar com os canivetes. É só uma forma diferente de dizer algo.
  • Organizar a memória (as palavras, as frases, o conteúdo): buscar na memória conhecimentos já estocados permitem relacionar causas dos sentimentos próprios e dos outros, pensar se já teve uma ação que deu certo e ignorar outra que não teve bom resultado.
  • Quando a criança consegue associar o que vivencia no momento: viu a professora com expressão brava e ouviu “estou tão chateada”, com fatos passados (outras vezes, quando fez esta expressão e disse esta frase, foi por conta das notas), pode já preparar a sua resposta.
  • Recuperar regras sociais da memória: um amigo pega seu lápis sem pedir emprestado. A criança lembra que, quando pegou de volta o lápis, este amigo lhe deu um tapa e gritou e ela chorou. Desta vez, pode tentar pedir de outra forma.
  • Iniciar e responder na hora certa e manter o tema: a criança sabe que, se responde quando o amigo pergunta “de quem é o casaco”, a pessoa resolve o problema e para de gritar. Se a criança começa a falar de brinquedo quando a mãe está falando das notas, a mãe vai ficar  brava.
  • Agir: Ter coragem de falar, iniciar a comunicação, dar respostas, falar sobre um assunto, introduzir assunto novo, manter o assunto quando é de interesse dos envolvidos, pedir objetos, ações e opiniões, comentar sobre algo que gosta ou gostaria, protestar, dar opiniões, explicar suas ações, tirar dúvidas, fazer elogios, perguntar nomes, propor brincadeiras, oferecer ajuda, argumentar.

Se a criança não entende e/ou não consegue transmitir o que precisa, aumentam as chances de aparecer comportamentos como desatenção, ansiedade, agitação, brigas constantes, gritos, agressões verbais e físicas, humilhações em público, dificuldades para aprender e se socializar, problemas para fazer amizades e namorar, dificuldades para conseguir um emprego e manter-se nele, dificuldades em resolver problemas.

Para diagnóstico, é muito importante considerar todas as áreas do desenvolvimento. A queixa, problema observado pela família, conduz a consulta com especialistas. Você, pai/mãe deve questionar o especialista sobre necessidade de avaliação e outras áreas.

  • Os déficits na linguagem, na fala ou na aprendizagem, são causa ou consequência de agitação excessiva e desatenção?
  • Os comportamentos agressivos e impulsivos são causa ou consequência de atraso no desenvolvimento da linguagem?

Vamos exemplificar:

  • Pessoas com Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade apresentam agitação, déficit de atenção e impulsividade (pode ter um sintoma predominante) e, por isto, PODEM ter atraso para adquirir sons e formar vocabulário; podem entender a relação entre sons e letras mas não automatizam porque não consegue armazenar muitas informações. Neste caso, fazer apenas terapia fonoaudiológica, não resolve. O tratamento fica mais extenso, mais árduo e o paciente perde oportunidades de aprendizagem.
  • Outro exemplo é uma criança com agitação e desatenção, com o diagnóstico do TDAH, recebendo intervenção para atenção e comportamento. A agitação pode melhorar e a criança se concentrar, mas continua tendo dificuldades escolares. Se existe também uma dificuldade de linguagem, apenas o tratamento especifico para os sintomas do TDAH não vão trazer os resultados esperados.
  • Crianças podem ter comportamentos agressivos ou de isolamento porque sofrem bullying por falar errado, ou não conseguir se expressar verbalmente, ou ainda tirar notas baixas. Tratar apenas o aspecto emocional sem atingir a causa, um problema de linguagem neste exemplo, não vai tirar a criança do sofrimento. Ao mesmo tempo, o fonoaudiólogo experiente consegue identificar reações emocionais consequentes aos problemas de comunicação e envolver profissionais de outras áreas na conduta terapêutica.

É nosso dever enquanto profissional estudar e conhecer as áreas do desenvolvimento e acolher integralmente a criança e o adolescente. Respeitar a especificidade de cara área profissional e ser ético diante a necessidade de encaminhamento. E ainda ser receptivo e flexível na condução de cada caso.

Fontes consultadas:

Chow, J. C. Comorbid Language and Behavior Problems: Development, Frameworks, and Intervention. School Psychology Quarterly.2018, 33(3):356-360

Curtis PR, Frey JR, Watson CD, Hampton LH, Roberts MY. 2018 Aug;142(2). pii: e20173551. doi: 10.1542/peds.2017-3551. Language Disorders and Problem Behaviors: A Meta-analysis. Peditrics

National institute of child health and human development- NICHID- Early Child Care Research Network. Pathways to reading: the role of oral language in the transition to reading. Developmental Psychology. 2005;41(2):428-42.

Stivanin L. Programa Fonoaudiológico Educacional no Ensino Fundamental I: Benefícios na Aprendizagem, Comportamento e Habilidades Sociais. Pesquisa de Pós Doutorado.2016.

Luciene Stivanin

Fonoaudióloga
CRFa 2-14385

• Fonoaudióloga USP
• Doutorado em Ciências da Reabilitação USP
• Pós Doutorado na área de Fonoaudiologia Educacional USP
• Atuação em linguagem, aprendizagem e cognição

Compartilhe

Share on whatsapp
WhatsApp
Share on facebook
Facebook
Share on linkedin
LinkedIn
Share on email
E-mail
Share on print
IMprimir

Leia mais

O que são as funções executivas?

Toda criança adquire conhecimento através de uma série de funções cognitivas, como memória, linguagem, atenção, percepção e as funções executivas. Cada uma delas é responsável por processar informações específicas, mas todas se interrelacionam de alguma maneira.

Ler agora »

Dislexia

A Dislexia é um transtorno do neurodesenvolvimento, caracterizada por dificuldade persistente em leitura, apesar de capacidade intelectual, instrução escolar e orientação familiar adequadas.

Ler agora »